No livro Hamlet de Shakespeare, ela é a personagem. Na vida real, muitas vezes, ela é espelho. Ofélia é aquela que sente demais, mas fala de menos. Que percebe as coisas antes dos outros, mas se silencia para não incomodar. Que é puxada de um lado pelos deveres, de outro pelas expectativas, e no meio disso tudo vai se perdendo de si mesma. Ela ama, é leal, é sensível, mas é constantemente colocada num lugar de obediência, de passividade, de “faça o que mandam, não o que sente”.
Em "Hamlet", quase tudo gira em torno do conflito dele. A dor dele, a dúvida dele, a vingança dele. E, enquanto isso, Ofélia vai se apagando aos poucos, até que sua própria dor explode de forma silenciosa e trágica. Ela enlouquece, canta coisas que ninguém leva a sério, mistura lucidez com delírio, até desaparecer de vez. Só então começam a falar dela como “coitadinha”.
Na vida, isso acontece mais do que a gente imagina.
Você vai engolindo: aquilo que te machuca; aquilo que você queria dizer, mas não quer “parecer exagerada”; aquilo que sente, mas tem medo de ser julgada, abandonada ou ridicularizada.
Vai obedecendo papéis e se tornanda a filha que não reclama, a parceira que entende tudo,
a amiga que sempre ouve, mas nunca é realmente ouvida. E, sem perceber, vai se tornando coadjuvante da própria história, igual Ofélia foi no drama de Hamlet.
A sina de Ofélia é essa: existir em função do outro até desaparecer de si mesma.
Quando você:
1. Se cala para não “estragar o clima”;
2. Se culpa por sentir demais;
3. Normaliza relações que te confundem, te diminuem ou não te valorizam;
4. Acha que sua dor é pequena demais pra incomodar alguém;
Você vai, pouco a pouco, repetindo o roteiro dela. Mas tem um ponto importante: você não é personagem de uma tragédia já escrita. A diferença entre você e Ofélia é que, aqui fora, não existe um Shakespeare decidindo o fim. Existe escolha, existe ajuda, existe saída.
É aqui que entra a psicoterapia.
A terapia é esse espaço onde:
- você deixa de ser figurante no seu próprio enredo;
- sua dor não é considerada “drama” e passa a ser escutada com seriedade;
- você começa a entender por que aceita tão pouco, por que se cala tanto, por que se apaga pra caber na vida dos outros.
Na terapia você tem um lugar para pensar em voz alta, chorar sem censura, questionar os “papéis” que te deram e, se quiser, reescrever o roteiro.
Talvez você não tenha percebido, mas:
- toda vez que você sente que está “surtando” sem entender por quê;
- toda vez que se vê rodead) de gente, mas se sente profundamente só;
- toda vez que se olha no espelho e já não se reconhece mais;
pode ser um sinal de que essa sina silenciosa está se repetindo.
Ofélia não teve quem a ajudasse a organizar a própria dor antes que ela transbordasse. Você tem. Falar da sua história, reconhecer seu sofrimento, questionar as relações que te sufocam e aprender a se colocar como protagonista não é egoísmo. É sobrevivência emocional.
Se você se identificou, nem que seja um pouco, talvez seja hora de perguntar a si mesma:
“Quanta parte de mim eu tenho sacrificado para continuar cabendo na vida dos outros?” E, a partir daí, considerar um passo que Ofélia nunca pôde dar: buscar ajuda, acolhimento, psicoterapia. Não para apagar o que você sente, mas para te ajudar a existir por inteiro e não só como um personagem secundário na história de alguém. As informações sobre como funcionam o processo terapêutico estão disponíveis aqui neste link.
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Com carinho.
Thalita Gonçalves.
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